23 de set. de 2026

Mesmo com direito ao voto, analfabetos ainda enfrentam barreiras para participar das eleições

 



Atualmente o Brasil registra mais de 8 milhões de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler e escrever, segundo dados divulgados pelo IBGE. E mais da metade deles estão na região Nordeste, com 4,8 milhões de pessoas analfabetas, o que equivale a 57,4% do total no país. No norte, a taxa é de 5,7% e no Sul, de 2,4%. O Sudeste registra 2,3% e no Centro-Oeste o índice é de 3,3%.

Para esses milhões de brasileiros que não sabem ler e escrever, o período eleitoral pode representar uma série de obstáculos que vão muito além do momento de apertar os números na urna eletrônica. Eles têm o direito de votar, mas nem sempre conseguem participar plenamente das eleições.

Como conhecer os candidatos sem conseguir ler materiais de campanha? Como comparar propostas, acompanhar notícias ou verificar se uma informação recebida é verdadeira? Como tomar uma decisão de forma totalmente autônoma quando é necessário depender de outras pessoas para compreender grande parte das informações que circulam durante uma eleição?

Essas são algumas das questões que envolvem a participação política das pessoas analfabetas no Brasil e levantam um debate urgente sobre acessibilidade, inclusão e democracia.

“Aprender a ler e escrever amplia o horizonte dessas pessoas e fortalece sua participação na sociedade. Com a alfabetização e o letramento, os alunos passam a ter mais condições de pesquisar os candidatos, comparar propostas, reconhecer seus direitos e tomar decisões com maior independência e mais autonomia. Dessa forma, o voto deixa de ser apenas uma obrigação ou uma escolha orientada por terceiros e passa a representar, de fato, o exercício consciente da cidadania”, explica Ariana Conceição, pedagoga e coordenadora regional do Programa de Alfabetização e Letramento do Instituto Yduqs, em Imperatriz-MA, por meio da instituição de ensino  UniFacimp Wyden.

Embora o sistema eleitoral brasileiro tenha recursos que facilitam a votação, como a fotografia dos candidatos e a identificação por números, o desafio começa muito antes da chegada à urna. Para exercer o voto de forma consciente, o cidadão precisa ter acesso às informações, compreender o que está sendo discutido e formar sua própria opinião.

Nesse cenário, a dependência de familiares, amigos ou outras pessoas para acessar conteúdos pode limitar a autonomia do eleitor. Afinal, quem não consegue ler uma notícia, uma proposta ou uma mensagem recebida pode precisar da interpretação de outra pessoa e, essa mediação pode, muitas vezes, carregar opiniões, interesses e influências. O problema, portanto, não está apenas em garantir o acesso ao voto, mas em assegurar o acesso à informação.

Especialistas defendem que uma democracia verdadeiramente inclusiva precisa investir em formas mais acessíveis de comunicação política e eleitoral. Conteúdos em áudio, vídeos explicativos, linguagem simples e campanhas educativas são alguns dos recursos que podem ampliar a compreensão e fortalecer a autonomia dos eleitores.

A coordenadora explica que em Imperatriz, no Maranhão, é percebido na rotina que as dificuldades enfrentadas pelos alunos atendidos pelo programa vão além do acesso à informação, elas afetam diretamente a autonomia para exercer o direito ao voto. Durante o período eleitoral, muitos alunos relatam dificuldades para compreender as propostas, identificar os candidatos e acompanhar outras informações necessárias para fazer uma escolha consciente, além de que este ano o voto é mais confuso e longo, pois são mais candidatos e mais cargos, 5 ao todo. A dificuldade, segundo Ariana, está primordialmente em avaliar criticamente o conteúdo recebido, verificar se uma informação é verdadeira e compreender textos e propostas apresentados em diferentes meios, principalmente por conta das fake News e de conteúdos gerados por inteligência artificial que se intensificam neste período do ano. Familiares, amigos e pessoas de confiança acabam exercendo grande influência sobre a decisão eleitoral.

A discussão ganha ainda mais relevância em um país onde o analfabetismo continua sendo uma realidade para milhões de pessoas. Garantir que esses cidadãos possam votar é fundamental. Mas garantir que possam entender, questionar, comparar e decidir por conta própria é um passo.

“Em sala de aula, temos ressaltado a escuta e a importância de abrir espaço para que os alunos compartilhem as vivências e dificuldades enfrentadas nas eleições anteriores. Esses relatos ajudam a compreender os obstáculos concretos que encontraram e permitem desenvolver atividades voltadas à realidade deles. E, assim contribuir para que, nas próximas eleições, possam participar com mais segurança, senso crítico e autonomia, fazendo escolhas a partir de suas próprias necessidades e da realidade de Imperatriz, do Estado do Maranhão e do país”, conclui a pedagoga.

Alfabetização em Imperatriz-MA

O Programa de Alfabetização e Letramento do Instituto Yduqs atende jovens, adultos e idosos em Imperatriz-MA que não tiveram acesso à educação no tempo regular ou que enfrentam dificuldades de leitura e escrita. Desenvolvido no UniFacimp Wyden, o programa também conta com a parceria da Equatorial, iniciativa social do Grupo Equatorial, que reforça a importância da articulação entre diferentes setores para o enfrentamento do analfabetismo na região. 

Saiba mais em Inscrição - Programa de Alfabetização e Letramento.

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