O chão está limpo, os móveis sem poeira e você passou a vassoura até naquele cantinho que sempre fica esquecido. Mas existe um lugar na sua casa ou no seu local de trabalho que pode passar meses fora da faxina justamente porque a sujeira fica escondida: o interior do ar-condicionado. Fechado, instalado no alto e funcionando normalmente, o aparelho dificilmente dá pistas visuais de toda a sujeira que pode estar acumulada por dentro.
E não é só uma questão de limpeza: com o passar do tempo, filtros e outras partes internas do aparelho podem acumular poeira, partículas, ácaros, fungos e outros microrganismos, especialmente em locais onde há umidade. O resultado pode aparecer tanto na qualidade do ar respirado no recinto quanto no funcionamento do próprio equipamento.
A médica Rayssa Gabrielle Pereira de Castro Bueno, docente do IDOMED Açailândia, explica que o aparelho não apenas resfria o ambiente: ele também movimenta o ar. Isso significa que, dependendo das condições de limpeza e manutenção do ar-condicionado, parte das partículas acumuladas pode retornar ao ambiente e ser inalada.
“Um aparelho sem manutenção adequada pode acumular partículas e, dependendo das condições de umidade e higiene, favorecer a presença de microrganismos. Além disso, ambientes fechados, com pouca renovação de ar e muitas pessoas, facilitam a circulação de agentes infecciosos. Nosso sistema respiratório possui mecanismos naturais de defesa, mas a exposição frequente a ambientes com muitos agentes irritantes pode sobrecarregar essas defesas”, explica a professora.
Problemas
Espirros, coriza, congestão nasal, coceira no nariz e na garganta, tosse, irritação e ressecamento das vias aéreas estão entre os sintomas que podem estar associados à exposição a ambientes em que o ar condicionado está sujo ou funcionando em condições inadequadas. Algumas pessoas também podem apresentar desconforto nos olhos, dor de cabeça e mal-estar, principalmente quando passam muitas horas nesses locais.
Isso não significa, porém, que qualquer espirro em uma sala climatizada possa ser colocado na conta da sujeira do aparelho. “Nem todo sintoma apresentado por uma pessoa que utiliza ar-condicionado significa que o aparelho é necessariamente a causa. Temperatura muito baixa, ar excessivamente seco, baixa renovação do ar e outros fatores ambientais também podem contribuir”, ressalta Rayssa.
Ela ressalta que, embora não seja a principal causa de problemas respiratórios, a exposição prolongada a um aparelho sem manutenção adequada pode funcionar como um fator agravante. “Em quem já convive com rinite, asma ou outras doenças respiratórias, pode haver maior inflamação ou hiperresponsividade das vias aéreas. Em pessoas com asma, por exemplo, a exposição a partículas e outros irritantes pode favorecer ou agravar tosse, chiado e falta de ar. Crianças, idosos, pessoas com doenças crônicas e aquelas com algum comprometimento do sistema imunológico também estão entre os grupos que exigem maior cuidado”, alerta.
A conta também pode sentir a diferença
Além dos problemas de saúde, o impacto da sujeira do aparelho pode atingir também o bolso. Se os efeitos sobre a saúde ficam escondidos dentro do aparelho, o mesmo acontece com os impactos no próprio ar-condicionado. Segundo Ricardo Antônio da Silva , engenheiro e professor do UniFacimp Wyden, o acúmulo de sujeira pode comprometer o desempenho e a confiabilidade do equipamento.
Ricardo explica que quando o aparelho não é limpo, os filtros, evaporador ou condensador podem ficar obstruídos. Com mais dificuldade para funcionar, o sistema pode consumir mais energia e sofrer maior desgaste. Na prática, isso significa uma conta de energia mais alta e um aparelho que pode durar muito menos tempo até dar defeito e pedir troca.
“O acúmulo excessivo de sujeira no sistema interno restringe a circulação de ar, aumenta a temperatura de operação e reduz a eficiência da troca térmica. Isso pode provocar sobrecarga, aumento do consumo de energia, desgaste prematuro e, em casos severos, falha do motor ou compressor”, explica Ricardo.
Hora da Limpeza
A frequência depende da frequência de uso e das condições do ambiente, mas Ricardo indica uma referência para não deixar a tarefa cair no esquecimento. Os filtros devem ser limpos a cada 15 a 30 dias, enquanto a higienização e a manutenção interna do equipamento devem ser realizadas, em geral, a cada seis meses ou conforme as condições definidas pelo fabricante.
Rayssa Bueno, por sua vez, reforça que o cuidado precisa ser pensado como parte da qualidade do ambiente como um todo. Além de manter filtros e aparelhos higienizados e realizar a manutenção periódica, é importante garantir renovação do ar e evitar temperaturas excessivamente baixas. “A qualidade do ar que respiramos tem impacto direto sobre o funcionamento do sistema respiratório. Cuidar desse ambiente também é uma forma de cuidar da saúde”, conclui a médica.

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